Diversidade, representatividade e política nos quadrinhos: e eu com isso?

Quadrinhos e politica
Porque você deveria apoiar, incentivar e ser grato as pautas sociais na cultura pop

Há algumas semanas, tivemos o Mês do Orgulho LGBTQIA+ — Mais precisamente em 28 de Junho — neste período, diversas marcas, perfis e páginas trocam temporariamente suas fotos e ícones pelas cores que simbolizam a diversidade e publicam conteúdos relacionados ao tema. Nas páginas de cultura pop, esse movimento é ainda mais forte e a data é celebrada como deve ser, com orgulho. E foi isso que vi nas dezenas de páginas e perfis dedicados a quadrinhos, cinema e TV que sigo por ai. Mas nem tudo são flores. Eu e meu péssimo hábito de ler os comentários…

Uma parte considerável da comunidade “nerd” é no mínimo, complicada. Sempre tem um mala que se sente pessoalmente ofendido por ver as cores do arco-íris, ou alguma postagem sobre filmes e quadrinhos que tenham como temática a sexualidade alheia. E não são apenas as temáticas LGBTQ+ que incomodam esses “nerds” de personalidade fraca e almas sebosas. Qualquer adição de representatividade étnica, sexual ou de gênero, além de qualquer manifestação de pensamento critico, político ou progressista, é motivo para ataques e comentários previsíveis. E não só as obras são atacadas, como qualquer página ou perfil de cultura pop que ouse trazer estes temas, uma vez por ano que seja.

—Não misture politica com meus quadrinhos!
—Lá vem a lacração!
— Gostava mais da página quando não dava opinião. Deixando de Seguir.
— Comunista!!!
— Quem lacra não lucra!

Eu realmente tenho que parar de ler os comentários…

E lá vai o criador de conteúdo explicar para o marmanjo que quadrinhos sempre tiveram política. Que representatividade e diversidade são importantes. E que ele deveria ler novamente os X-Men, mas dessa vez, ler o que tem nos balões e não só ver as figuras.

Pra ser sincero, acho tudo isso muito cansativo. Acho cansativo que criadores de conteúdo tenham que se justificar sobre o que postam em suas páginas e perfis. Acho cansativo que artistas, ativistas, pessoas de gêneros, etnias e sexualidades diversas tenham que, além de resistir, desprender certa energia pra ensinar e justificar para nós, homens brancos e adultos, que essas coisas são importantes e que devem estar presentes inclusive na cultura pop.

Não é de hoje que estas discussões e debates são levantados a exaustão na cultura pop. Quadrinhos e política se misturam sim. Pautas, críticas e debates sociais devem sim estar presentes em qualquer manifestação artística e cultural. E não só pelos benefícios inclusivos da coisa, mas também pela evolução cultural que estes temas proporcionam e agregam ao meio.

Mas não escrevo este texto para dissecar e pontuar a importância histórica e política dos quadrinhos; Ou propor um estudo sobre o impacto politico dos super-heróis. Existem pessoas mais capacitadas e com mais bagagem para isso. O ponto que quero levantar é: Porque nós, homens brancos, héteros e privilegiados, devemos celebrar e defender a diversidade e a política nos quadrinhos.

E apesar de focar nos quadrinhos, sobretudo os quadrinhos de super-heróis, acredito que meus argumentos possam ser aplicados em qualquer categoria da cultura nerd/geek, como o cinema, as séries e os games.

Sempre foi sobre política

Os personagens mais longevos, sempre surgem da opressão.

Mark Waid, para o documentário Origens Secretas: A História da DC Comics, de 2010.

O primeiro ponto, e talvez o mais batido deles, é que sempre foi sobre política. O Capitão América lutou contra nazistas antes mesmo dos EUA entrarem na guerra; O Superman combatia violência doméstica, corrupção do governo e intolerância desde sua primeira aparição; A revista dos X-Men é sobre minorias, sobre diversidade e questões sociopolíticas desde 1963. Não é de agora que colocam política no seu gibizinho.

Capa de World’s Finest Comics #9 de 1941 e Capitão América #1 de 1941

Superman, o imigrante de um planeta distante e maior super-herói de todos os tempos, foi criado por dois garotos judeus durante o período mais sombrio para esse povo. Na verdade, toda a indústria dos quadrinhos norte-americanos foi criada e moldada por garotos pobres, judeus e imigrantes, que ansiavam por igualdade e justiça, e que criaram personagens que pudessem ascender por eles. Eles já colocavam política no seu gibizinho.

Ainda falando no Superman, ele misturou política e cultura pop quando, nos anos 50, combateu a Ku Klux klan. Não só nos quadrinhos, quanto em seu programa de rádio.

A Liga Antidifamação tinha um infiltrado na KKK. Todos os dias ele nos ligava e nos passava o código usado por eles. E nós o revelávamos no Superman. Enlouquecíamos a KKK.

Irwin Donenfeld, Vice Presidente da DC (1958 – 1967)
No documentário Origens Secretas: A História da DC Comics, de 2010.

Podemos pegar centenas de exemplos de que esses elementos sempre estiveram lá, desde as primeiras páginas dos quadrinhos, inclusive nas capas ao longo das décadas. Mas talvez ainda não seja suficiente para quem pede quadrinhos sem politica.

A Mulher Maravilha é uma embaixadora. Nada mais político que isso. Capa da Sensation Comics #13 de 1942

Fortalecimento e evolução da indústria dos quadrinhos

Abri este texto dizendo que, além de defender e incentivar a diversidade e a representatividade nos quadrinhos, deveríamos agradecer por esses fatores existirem. Agradecer, pois sem esses movimentos progressistas, provavelmente não teríamos mais tantos quadrinhos assim, e o “nerd” reaça teria que arrumar outro motivo pra dar vexame nas redes sociais.

Não é novidade que a indústria quadrinhos é pequena, se comparada a outros filões da cultura pop. Esse mercado encolheu nos anos 50, com a popularização da TV e quase não sobreviveu aos anos 90. E por mais doloroso que seja admitir, hoje essa mídia é uma sombra do que já foi. Agora ela compete não apenas com a televisão e o cinema, mas com os streamings, videogames e a internet, como um todo. E como se não bastasse, esse mercado enfrenta os problemas com a distribuição, o pouco interesse e incentivo pela leitura e as crises econômicas de sempre. Mas o maior problema de todos, que tira o sono de editores e artistas, é que os quadrinhos tem uma enorme dificuldade de renovar seu publico e atrair novos leitores/consumidores. A não ser é claro, por iniciativas que propõem temas relevantes, trazem representatividade e personagens diversos. É graças a representatividade e as preocupações políticas, que as editoras conseguem renovar, cativar e manter um publico grande, diversificado e manter suas publicações em evidencia.

Então se você não tem muita empatia e não quer levar em consideração o valor humano e cultural dos quadrinhos serem obras políticas, com representatividade e inclusão, você pode só olhar para o lado comercial, monetário da coisa.

Se você gosta de algo, quer que essa coisa continue a existir, não é uma atitude muito inteligente espantar possíveis consumidores desse produto. É estupido hostilizar metade do publico que pede por esses personagens, histórias e obras. Quanto mais mulheres, gays, negros ou qualquer outra minoria social, para ler, comprar e repercutir sobre quadrinhos, mais forte fica essa mídia. Quanto mais pessoas se sentirem acolhidas, mais consumidores para financiar seu gibizinho do Demolidor, da Liga da Justiça, do Deadpool, ou essas porcarias do Scott Snyder que vocês leem.

X-Men: Uma das equipes de maior sucesso comercial dos quadrinhos – Astonishing X-Men #51

Não é atoa que os mangás ganharam tanto espaço e continuam a crescer, em relação aos Comics. Nos mangás, você tem obras para absolutamente todos os públicos, gostos e temas. Personagens novos surgem o tempo todo e logo conquistam seu espaço.

O conservadorismo já teve seu momento, sua chance, na indústria dos quadrinhos. E as vendas caíram 75% por causa disso. As histórias ficaram bobas, chatas, todas iguais e irrelevantes. Um bando de hippie teve que entrar no ramo, nos anos 70 e 80 e colocar política nos seus gibizinhos para que o mercado se renovasse e fosse salvo.

Relevância

Os quadrinhos regrediriam para a Era de Prata, se os apelos para quadrinhos sem politica fossem ouvidos. É a política, a diversidade e a representatividade que puxam os quadrinhos para os tempos atuais, trazem uma nova visão para a Nona Arte. São combustível para que novidades apareçam e boas histórias sejam contadas.

Acho muito curioso quando as pessoas pedem mais “realismo” nos quadrinhos, mas reclamam de política, de protagonismo feminino ou de personagens homossexuais. O conceito de realismo para esses “nerds” é apenas para pedir por mais violência, sangue e palavrões nas páginas. Mas quando essas mesmas páginas refletem o mundo real, problemas reais e pessoas reais, esse realismo se torna “lacração” ou “forçação”. Se uma mulher for desenhada com curvas reais, é motivo pra boicote ao artista e ao quadrinho.

Para um quadrinho ser relevante, ele não precisa ser realista. Mas se ele quer ser realista, ele precisa ser relevante em algum nível. Precisa de alguma conexão com a sociedade, com o contexto ou com as pessoas do mundo real — pessoas essas que são seres políticos, diversos e que precisam estar bem representados.

Pedir por quadrinhos sem política, é pedir quadrinhos irrelevantes. Além disso, é algo impossível de existir totalmente, já que qualquer produto cultural é fruto de uma visão particular do criador. A arte é moldada a partir da forma como enxergamos o mundo e seria muito injusto pedir para o seu autor favorito reprimir isso.

Os grandes artistas já teriam abandonado de vez a temática de super-heróis, os títulos mainstream ou até mesmo o ramo dos quadrinhos, se tivessem que dar ouvidos a esses comentários amargurados. Ninguém quer escrever algo irrelevante e todos querem se expressar por meio de seu trabalho.

E não é que eu não goste de quadrinhos ordinários e escapistas. Eles existem e me agradam muito. Mas não são essas obras que se perpetuam, nos marcam, impactam e revolucionam essa mídia. Além disso, nem essas são totalmente isentas, pois refletem em algum nível, a posição de seus idealizadores.

Pautas sociais, politica, diversidade, representatividade LGBTQ+ , feminismo, combate ao racismo e xenofobia, são o que tornam os quadrinhos tão importantes, verdadeiros e são o que atraem novos leitores e artistas talentosos do mundo inteiro. Caso não possam tocar nestes temas, esses mesmos artistas e leitores migrarão para o quadrinho underground, autoral e o mercado tradicional ficará apenas com as histórias esquecíveis e vazias.


Seja por empatia, pelo ponto de vista comercial ou criativo, essas iniciativas fazem bem para os quadrinhos, fortalecem, os mantém vivos, relevantes e interessantes. E mesmo que esses personagens não me representem diretamente, eles representam a tolerância que quero ver nas HQs, na cultura e no mundo.

Você não precisa concordar comigo, é claro. Ninguém está pedindo para que se torne um ativista dos direitos civis, apenas que não encha o saco da próxima vez que se deparar com uma minoria ou com um tema politico na sua revistinha de hominho.



Deixo como indicação o documentário: Origem Secreta: A História da DC Comics (Secret Origin: The Story of DC Comics, 2010)
Um documentário fantástico sobre a fundação, a ascensão e os momentos marcantes da editora. Compilando arquivos e entrevistas de alguns autores, editores e desenhistas lendários dos quadrinhos. Chorei :’)

Comente, compartilhe e conheça os outros textos aqui do Incoerente. Vai me ajudar demais!



Publicado por Samuel Patrian

Defendo filmes ruins, tenho mais quadrinhos que consigo ler e to sempre atrasado nas minhas séries.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: