Marvel no cinema: No caos dos anos 90

Mesmo após fracassar nos anos 80, a Marvel ainda não havia desistido de adaptar seus heróis para o cinema. Mas, haviam os anos 90 no meio do caminho…

Como dito no texto anterior: Os anos 70 e 80 não foram fáceis para a “Casa das Ideias” no cinema. Mas nenhuma década foi tão complicada e influencia tanto as produções atuais, quanto os famigerados anos 90. 

Para que possamos entender o porquê desse período ter sido tão determinante para a história da Marvel no cinema e na TV, compreendermos as decisões tomadas e tudo que culminou no cenário atual, é importante contextualizar o momento em que a empresa se encontrava. E para isso, temos que olhar rapidamente para as HQs. Pois, apesar de ser conhecida como: “A década perdida dos quadrinhos de super-heróis”, os anos 90 foram um período intenso para a indústria. Intenso até demais.

Enquanto isso, nos quadrinhos…

Se os anos 80 foram marcados pela profundidade de algumas obras (Watchmen, Cavaleiro das Trevas) e pela abordagem adulta e realista de vários temas nos quadrinhos, os anos 90 ficaram famosos por corromper esses conceitos. Foi um período marcado pelo exagero visual, pelas estratégias comercias questionáveis, pela especulação, falta de planejamento e por seus personagens genéricos e apelativos. É como se todo o amadurecimento, lapidado ao longo da década anterior, fosse mal interpretado e a indústria só aproveitasse o superficial, a violência gratuita e a roupagem “adulta”, além da banalização do formato Graphic Novel.

No inicio da década, ao abrir capital na bolsa de valores, a Marvel adotou táticas baratas de vendas, com intuito de agradar acionistas que não conheciam o ramo e visavam lucros rápidos. Começou ali, uma onda de capas variantes, reboots, mega-sagas e as comics shops inundadas por edições numero 1. Esses lançamentos eram focados nos colecionadores, que compravam a mesma edição várias vezes, com capas diferentes, por pura especulação. Acreditava-se que essas edições iriam se valorizar, pois naquele período, a edição Nº1 do Superman beirava $1 milhão de dólares em leilões. 

Essas táticas até trouxeram resultados a curto prazo. Em 1991, a Marvel atingiu a maior vendagem da história com X-Men #1. Mas logo a indústria dos quadrinhos mainstream começou a implodir e a bolha causada por toda essa especulação, começou a estourar. Nesse período, houve uma migração de leitores e autores, para o quadrinho independente. 

A DC Comics, principal concorrente, conseguia se segurar muito bem com sagas impactantes como A Morte do Superman (1992), A Queda do Morcego (1993) e Reino do Amanhã (1996). A editora também conquistou boa parte do mercado ao criar o selo Vertigo, em 1993, para publicar seus títulos mais adultos e autorais. 

Enquanto isso, a Marvel Comics penava para emplacar seus títulos. Mesmo tendo lançado obras icônicas como O Homem sem Medo (1993) e Marvels (1996), eram tantos reboots e sagas confusas, que os leitores foram debandando. Suas publicações estavam em uma linha de produção pouco criativa e muito focada na estética, onde alguns de seus artistas emulavam o traço de Jim Lee, na tentativa replicar seu sucesso. 

Os anos noventa geraram coisas assim: uniformes que se alteravam a cada edição, cheios de ombreiras, armas e armaduras exageradas. Os desenhos traziam proporções extrapoladas e uma sexualização ainda maior das personagens femininas. Tudo isso, incentivado por marketing de gosto duvidoso.

Talvez as sagas mais memoráveis publicadas pela Marvel nesse período, sejam a vergonhosa Homem Aranha: Saga do Clone (1994–1996) e a odiada Heróis Renascem (1996). Memoráveis, mas não de uma maneira positiva.

Para fechar o caixão e beijar a viúva, em 1992, alguns do artistas mais importantes da editora naquele período (Todd McFarlane, Erik Larsen, Rob Liefeld e o consagrado Jim Lee) decidiram sair para fundar a Image Comics. Eles basicamente abriram sua própria Marvel, com jogos e prostitutas. Com personagens de gosto e originalidade duvidosa, mas que possuíam um enorme apelo entre os jovens e com um controle criativo total para os artistas, a Image começou a concorrer e a ultrapassar a Marvel em vendas. 

A soma de todos esses fatores, mais alguns investimentos ruis (compra da Malibu Comics, entrada no ramo de cards de baseball, etc…), fez com a Marvel chegasse ao final de 1996 abrindo falência, com uma dívida de 500 Milhões de dólares e vendas baixíssimas. 

Recuperação Traumática

Só em 1997 as coisas começaram a entrar nos eixos. Isaac Perlmutter e Avi Arad assumiram o controle da empresa e começaram a planejar uma recuperação. Essa recuperação custou caro e seus efeitos ecoam nas produções até hoje. Pois, para que a Marvel pudesse ser recapitalizada, a editora vendou o que possuía de mais valioso: sua propriedade intelectual. Os direitos de adaptação da maioria de seus personagens foram leiloados e espalhados por vários estúdios diferentes. 

As negociações desses direitos cinematográficos são um assunto complexo. Envolvem dezenas de empresas e subsidiárias, diferentes tipos de contratos, direitos de produção e distribuição, vendas e revendas. Além do mais, a Marvel já havia vendido e negociado alguns desses direitos, mesmo antes de falir. A empresa fez este tipo de negociação durante toda a sua história, mas foi durante a falência que cedeu a contratos mais rígidos e negociou seus personagens mais valiosos. Em resumo: O Quarteto Fantástico, Deadpool, Demolidor e os X-Men foram para a Fox, o Hulk foi parar na Universal e sua joia mais preciosa, o Homem-Aranha acabou na Sony, onde permanece até o momento.

Personagens como Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Blade, Justiceiro, Motoqueiro Fantasma, Pantera Negra e tantos outros, também foram negociados, trocados e revendidos por mais de uma década. Vários deles ganharam filmes no começo dos anos 2000, mas não emplacaram. Alguns foram usados como moeda de troca em outras negociações e rolaram por diversas empresas durante mais de 15 anos. E outros, até retornaram pra Marvel, tempos depois. 

Equivocadas ou não, foram as vendas dos direitos dos personagens que salvaram a empresa. A Marvel se reergueu, seus quadrinhos voltaram ao topo, onde permanecem, mesmo que a mídia já não tenha o mesmo poder comercial de antes. 

Agora, vamos aos filmes que resultaram dessa bagunça burocrática.

Bill Bixby e Lou Ferrigno, Dr.Banner e Hulk

A primeira produção live-action da década a levar o selo “Marvel”, foi o filme para a televisão: A Morte do Incrível Hulk em 1990. Continuação da série (1978–1982) e dos telefilmes (1988 e 1989), estrelando Lou Ferrigno. Uma ultima tentativa de reviver a série, o que não deu certo. 

Capitão América 1990. Não, não é o Didi Mocó. 

O personagem seguinte, talvez seja um dos heróis mais maltratados nas produções audiovisuais. O Capitão América (1990), vivido por Matt Salinger (de A Vingança dos Nerds) era um pouco mais fiel as HQs, que as tentativa anteriores e até alguns vilões clássicos, como o Caveira Vermelha, deram as caras. Porem, o baixo orçamento e problemas nas negociações, fizeram com que o filme fosse lançado só em 1992, direto para o VHS.

Quarteto-Fantástico, 1994. Nunca lançado, oficialmente.

Em 1994, a Marvel concebeu seu filme mais amaldiçoado. O filme que nunca houve: O Quarteto-Fantástico. 

O Quarteto-Fantástico foi produzido apenas para que os direitos autorais, adquiridos ainda nos anos 80, não expirassem. O filme não chegou a ser lançado oficialmente, mas o publico pode conferir essa joia bruta do cinema anos depois, quando cópias ilegais vazaram.  

O filme contava a origem do quarteto e trazia o vilão clássico, Doutor Destino. A produção custou apenas $1 milhão de dólares, foi dirigida por Roger Corman, experiente em filmes de baixo orçamento. 


A maldição também não havia acabado no âmbito televisivo. Em 1996, foi lançado o episódio piloto de Geração X, baseado em um quadrinho spin-off dos X-Men. O piloto não gerou o resultado esperado e não resultou em uma série, mas para reduzir o prejuízo, a FOX o lançou como um filme para a televisão. A produção raramente é lembrada e a estética de videoclipe a faz parecer uma versão amaldiçoada de Malhação

Uma nova tentativa, com outro personagem, aconteceu em 1998. O piloto de Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D., estrelando David Hasselhoff, também acabou sendo lançado como um filme televisivo e a série nunca produzida. Felizmente, já que o baixo orçamento, o roteiro genérico e as atuações sofríveis, eram difíceis de engolir. 

Geração X de 1996 e Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D de 1998. Ambos produzidos como pilotos de séries, mas lançados como telefilmes.

Enquanto isso, a principal concorrente: DC Comics, também tinha seus fracassos na TV e no Cinema, mas possuía o dobro de produções. Entre 1989 e 1997, foram lançados quatro filmes do Batman, que mesmo ruins, arrecadaram muito dinheiro e conquistaram certa simpatia.

Para a Marvel, a década de 90 também foi a época dos “Quase”. O Homem-Aranha quase ganhou um filme, dirigido por James Cameron. O astro Wesley Snipes, quase foi o Pantera Negra e boatos dizem que Tom Cruise, quase foi o Homem de Ferro

Dr.Mordrid (1992) cópia picareta do Dr.Estranho, mago supremo da Marvel.

Também quase houve um filme do Doutor Estranho. Mas a produtora responsável Full Moon, não cumpriu os prazos determinados em contrato com a Marvel. 

Quando o filme foi cancelado, acharam de bom tom fazer a própria versão pirata do mago. Direto para o VHS, em 1992 foi lançado Dr.Mordrid.

A esculhambação dos anos 90 foi tanta, que até o Michael Jackson tentou comprar a Marvel durante a queda, só para que pudesse interpretar o Homem-Aranha nos cinemas.

Ponto de Virada

Quando pensamos no primeiro filme com personagens da Marvel a dar certo, geralmente o mérito é atribuído ao primeiro X-Men de Bryan Singer, lançado em 2000 ou ao Homem-Aranha de Sam Raimi, de 2002. Mas o acerto veio bem antes disso, em um filme lançado em 1998. 

Blade – O Caçador de Vampiros é um filme de ação/terror, protagonizado por Wesley Snipes, baseado no anti-herói da Marvel, produzido pela New Line com os direitos que havia adquirido. 

Raramente lembrado, Blade é talvez o único acerto de sua época, se tratando de um live-Action Marvel. O filme recebeu crítica mornas, mas conseguiu uma bilheteria razoavelmente boa e conquistou seus fãs. Prova disso, o filme ganhou sequências em 2002 e 2004.

Blade, o Caçador de Vampiros – 1998

O orçamento era escasso e seu lançamento, uma completa aposta por parte do estúdio, já que não havia histórico favorável para a Marvel no cinema. Hoje a obra é considerada datada e caricata, mas na época suas cenas de ação foram consideradas competentes. O clima soturno de terror, agrega uma originalidade que faz falta em filmes de super heróis ainda hoje. 

Blade pode não ter sido o responsável pelo boom desses filmes, mas com certeza foi um respiro para essa categoria e mostrou que era possível.

O que veio a seguir, nos anos 2000, foi o alvorecer dos Super-heróis em várias mídias e uma retomada inesperada para a Marvel. As apostas ficaram mais altas, os efeitos mais sofisticados e logo não haviam mais dúvidas quanto a força desses personagens. Quanto aos anos noventa? Só devem ser lembrados quando quisermos falar de tosquices e escolhas bizarras.


No próximo artigo, X-Men, Homem-Aranha e cultura pop nunca mais foi a mesma. A Marvel no cinema nos anos 2000, seus sucessos, fracassos e filmes esquecidos.


Em ordem cronológica, as produções abordadas no texto:
• 1990 – A Morte do Incrível Hulk (Telefilme, tentativa de revival da série)
• 1990 – Capitão América (Lançado em VHS)
• 1992 – Dr.Mordrid (Filme pirateado de Dr.Estranho, lançado em VHS)
• 1994 – O Quarteto-Fantástico (Filme produzido mas nunca lançado oficialmente)
• 1996 – Geração X (Piloto de série de TV, lançado como telefilme)
• 1998 – Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. (Piloto de série de TV, lançado como telefilme)
• 1998 – Blade – O Caçador de Vampiros (Filme)


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Publicado por Samuel Patrian

Defendo filmes ruins, tenho mais quadrinhos que consigo ler e to sempre atrasado nas minhas séries.

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