A Máfia volta a Hollywood


Ela nunca a deixou, de fato. Mas com algumas produções à caminho, o tema vem ganhando um novo fôlego no cinema e na TV. 

A Máfia, seja a Irlandesa, Japonesa ou a mais famosa delas, a Italiana, é um dos temas mais explorados pela indústria cultural e do entretenimento. Alguns dos melhores filmes de Hollywood e séries de TV, encaixam-se nesse subgênero. 

Ao longo dos anos, as histórias desses “velhos de terno” do crime organizado foram contadas muitas vezes e ganharam várias abordagens dentro da cultura pop. Desde o tratamento quase mitológico de Francis Ford Coppola na triologia O Poderoso Chefão, até a visão crua e realista de Martin Scorsese em Caminhos Perigosos (1973), Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995). Algumas dessas obras inspiradas em histórias reais, outras totalmente fictícias, mas que sempre impactaram a cultura pop de alguma forma. Os produtores amam o gênero, Hollywood tem uma queda por essa temática e ao que parece, estamos prestes a vivenciar uma nova safra da máfia no cinema e na tv. 

Por que os filmes de máfia ainda fazem tanto sucesso e possuem tanto apelo com o publico?

The Irishman, 2019

Crimes em geral fazem sucesso por toda a cultura pop. Você não precisa se sentir culpado por gostar de consumir as histórias e biografias de criminosos, fictícios ou reais. É uma curiosidade intrínseca à natureza humana e a indústria cultural sabe disso. A literatura, a televisão, os quadrinhos e o cinema, é claro, nunca dispensaram o tema. Algumas produções apenas glamourizam, mistificam e romantizam, mais que outras. 

Além disso, material não falta. A ficção já nos apresentou criminosos lendários, como Michael Corleone e Walter White, mas não chega perto da fonte inesgotável de absurdos chamada realidade. O Casal Bonnie e Clyde, o ladrão D.B Cooper, o traficante Pablo Escobar, só para citar alguns.

Crimes são ótimos “conflitos” para que os roteiristas possam trabalhar uma história e seus personagens. Em geral, crimes não só desafiam as regras da sociedade, como também a consciência e o senso de humanidade das pessoas. Tudo isso, faz com que personagens criminosos pareçam mais desenvolvidos e complexos que os mocinhos, na maioria dos filmes.

Mas dentro das histórias sobre crimes, as que envolvem a máfia se destacam. Além de terem todos os atrativos que expliquei nos parágrafos acima, tem o atrativo do pertencimento que essas obras abordam. O pertencimento, a ideia de mostrar internamente esses “clubinhos”, revelar seus costumes e mistérios, também explica como produções como Sons of Anarchy, Peaky Blinders e Clube da Luta fazem tanto sucesso. E o que é a máfia, se não um clubinho de criminosos, com códigos, hierarquias e conspirações por dinheiro e poder?!

Essas organizações, regidas por um companheirismo hipócrita e divididas por conceitos étnicos ultrapassados, nos proporcionam tramas imprevisíveis, tensas e nos mostram personagens em situações extremas. Aquele mundo cheio de trapaças e violência, tão banal e cotidiano para aqueles indivíduos, é algo inimaginável para a maioria das pessoas. Isso torna a máfia um tema com uma áurea tão fantasiosa quanto as crônicas Tolkianas, mesmo sem Elfos e dragões. 

Esses são alguns motivos pelos quais essa temática está sempre em evidência e essas obras sempre em produção. Mas esse subgênero também foi beneficiado pela história e pelos noticiários, se modificando bastante ao longo dos anos…

A máfia em diferentes momentos e contextos

Casino, 1995

Os anos 30 e 40 foram o início da máfia no cinema. Os EUA vivenciavam uma crise financeira (1929) sem precedentes e estavam em plena Lei Seca (1920–1933), o que aumentou a violência urbana e fortaleceu os gângsteres, como Al Capone e as cinco famílias que dominavam a máfia de Nova York. Esse contexto, fez com que a temática tomasse conta da literatura contemporânea e dos filmes, que utilizavam muito bem a estética noir, característica da época.

Mas foi nas décadas de 70 e 80 que a máfia ressurgiu no cinema e no imaginário popular. Em 1972, Francis Ford Coppola, baseado no livro de mesmo nome de Mario Puzo, lançou O Poderoso Chefão, um dos melhores filmes já feitos, o que inspirou (e continua a inspirar) centenas de produções. Durante essa época, os EUA enfrentavam a intensificação do narcotráfico e instaurava uma politica rígida de guerra as drogas, o que fortaleceu a máfia e a tornou ainda mais violenta. 

Ainda nessa época, o cinema testemunhou o surgimento da Nova Hollywood, um cinema mais autoral, que contribuiu com filmes como Scarface (1983) e Os Intocáveis (1987) de Brian de Palma, Caminhos Perigosos (1973) de Scorsese e Era uma Vez na América (1984) de Sergio Leone. Eram filmes mais urbanos, que falavam muito sobre a América e a marginalização de seus imigrantes.

Os anos 90, trouxeram certo revisionismo e abordagens diferentes quanto a máfia. Tivemos os já citados Cassino e Bons Companheiros, de Martin Scorsese. Os Tarantinescos Cães de Aluguel (1992) e Pulp Fiction (1994) e a comédia, Máfia no Divã (1999) de Harold Ramis . Essas obras, tratavam da decadência dessas organizações criminosas e mostravam a sofisticação das autoridades ao investigar e combater estes crimes. Neste período, os EUA e a Itália, promoviam um combate massivo à máfia. Era o fim de famílias poderosas, era o fim da Cosa Nostra e a condenação de homens poderosos. Além dos processos judiciais, como a famosa Operação Mãos Limpas do juiz Giovanni Falcone, a máfia era condenada por parte da mídia e pela opinião publica.

A partir dos anos 2000, poucas obras sobre a máfia se destacaram. A primorosa série da HBO, The Sopranos, é uma delas. Considerada uma das obras mais importantes da televisão, Sopranos possuía uma abordagem mais mundana, mais próxima dos filmes de Scorsese e relatava o que sobrou de tudo aquilo. Sobraram homens amargurados, que herdaram um império do crime lucrativo, porém decadente. Seus códigos de honra e suas regras, haviam se tornado antiquadas e fragilizadas. 

Criminosos como Tony Soprano, ainda eram poderosos e perigosos, mas não tinham metade da influência que seus antecessores um dia possuíram. Sopranos reflete perfeitamente a nossa nostalgia pelos filmes de máfia clássicos, assim como os personagens da série sentiam falta dos dias de glória da organização. 

Cheguei lá tarde demais, eu sei. Mas ultimamente, tenho a sensação que cheguei no final. Que o melhor já passou.

— TONY SOPRANO

Após o final da série, que durou de 1999 à 2007, poucas obras sobre a máfia tiveram tanto espaço. Produções Italianas ganharam um pouco mais de atenção e mostraram uma realidade além da visão egocêntrica americana, mas nada comparado ao sucesso dos filmes anteriores. Talvez os Infiltrados (2006) de Scorsese, a série de época da HBO, Boardwalk Empire (2010-2014) e a italiana Gomorra (2014-2020) sejam lembradas, mas longe de firmar uma nova explosão do gênero. Até agora. 

Uma nova onda de filmes de máfia?

No final de 2019, O Irlandês de Martin Scorsese, aconteceu. 

The Irishman, 2019

O Irlandês, trabalho mais recente de Martin Scorsese, marcou não apenas o retorno do diretor há um tema que o consagrou, como também o retorno do tópico “máfia”, à cultura pop atual. Uma atenção que há muito, o tema não ganhava. 

O filme, lançado pela Netflix, foi uma das produções mais assistidas do serviço de streaming, indicado ao Oscar e um sucesso de crítica. A recepção favorável de O Irlandês, pode influenciar produtores, diretores e estúdios a explorarem um pouco mais dessa temática, já que são filmes com baixo custo de produção (não é o caso do Irlandês) e que ainda atraem muito publico. 

O contexto também pode ajudar a movimentar um nicho da indústria cultural em direção a esse tema. Há alguns dias, a justiça deu inicio ao maior julgamento da história italiana contra a máfia calabresa ‘Ndrangheta. Foram 452 pessoas julgadas e mais de 6horas para ler nomes e acusações. 

Material, influência e contexto não faltam para que vejamos a máfia de volta a Hollywood. Abaixo, algumas produções que estão por vir e que os fãs do tema devem ficar de olho.

O Filme de Sopranos: The Many Saints of Newark

Sopranos: The Many Saints of Newark lidará com as tensões raciais entre negros e italianos na Newark dos anos 60, além de mostrar o inicio da relação do jovem Tony Soprano com a máfia. O elenco conta com Vera Farmiga, Jon Bernthal, Ray Liotta e Michael Gandolfini — Filho de James Gandolfini, protagonista de Sopranos, falecido em 2013.

O filme, anunciado ainda em 2018 e previsto para 2021, está sendo produzido pelo próprio criador, David Chase. Se o longa tiver dez por cento da influência e repercussão da série, fará um barulho gigantesco sobre o tema.

Francis Ford Coppola e sua nova versão de “O Poderoso Chefão III”

Quando penso que estou fora, eles me puxam de volta!

— Michael Corleone

Há algumas semanas, fomos surpreendidos com o anuncio de Coppola, de que ele está trabalhando em um novo corte de O Poderoso Chefão Parte III, para ser lançado ainda este ano.

O filme de 1990, encerrou a triologia de Michael Corleone e trinta anos depois, ainda divide os fãs. Coppola, com esta nova verão chamada de: Mario Puzo’s The Godfather: The Death of Michael Corleone, pretende concluir de maneira mais apropriada a triologia. 

Não sabemos o quanto do filme será alterado neste novo corte, mas tocar em uma obra já consolidada sempre altera os ânimos dos fãs. Se algo realmente extraordinário for feito, poderá trazer ainda mais atenção para essa história. 

Série misteriosa com roteiristas de Sopranos e Bons Companheiros. 

Terence Winter, Nicholas Pileggi e Brian Grazer foram convocados pela emissora Showtime para escrever e produzir uma nova série sobre o crime organizado nos EUA, desde a primeira família mafiosa. 

Winter trabalhou em Sopranos e Boardwalk Empire, enquanto Pileggi, escreveu livros sobre a máfia e filmes como Bons Companheiros, Cassino e participou de O Irlandês, como produtor.

É impossível calcular a repercussão que a série ganhará, mas é uma equipe criativa difícil de ser ignorada. 

O Batman contra a máfia

Isso mesmo, o Batman. 

O filme The Batman, de Matt Reeves, previsto para 2021, contará com uma galeria de vilões. Charada, Pinguim, Mulher-Gato e Carmine Falcone, o chefe mafioso de Gotham

Embora não seja um personagem icônico como o Coringa e outros malucos do Arkham, Carmine e a máfia são antagonistas importantes no inicio de carreira do personagem nos quadrinhos e pode ser um destaque no filme, onde será interpretado por John Turturro. Mas há outros indícios de que a máfia será um elemento importante desse filme…

A HBO está desenvolvendo uma série que se passará no mesmo universo do filme e trará uma trama mais policial, focada na corrupção e no crime organizado de Gotham. O roteiro? Fica por conta do já citado, Terence Winter, de Boardwalk Empire e Sopranos.

Francis And The Godfather

Um filme sobre a produção do Clássico O Poderoso Chefão. 

Coppola com parte do elenco de Godfather, 1971

Estrelado por Oscar Isaac e Jake Gyllenhaal, o longa mostrará os esforços da Paramount e de Coppola durante a produção, no começo dos anos 70. Desde o processo criativo caótico do diretor, a escalação do polêmico Marlon Brando para o papel de Vito Corleone, até os problemas com orçamento e com a máfia de verdade. 

A direção é de Barry Levinson (Oscar de Melhor Direção por “Rain Man”) e ainda não possui uma data. Com certeza atrairá a atenção de fãs do gênero e fará um barulho sobre o primeiro Poderoso Chefão, às vésperas de completar 50 anos desde seu lançamento.


Filmes e séries sobre a máfia sempre foram obras políticas, que falavam da hipocrisia capitalista e faziam alusões a diferentes contextos sociais e relações de poder. O interesse das pessoas por politica e a polarização atual, talvez sejam materiais promissores para esses filmes desenvolverem. 

A máfia talvez não opere mais com suas táticas, etiquetas e códigos ultrapassados. Mas por trás de corporações, com dinheiro lavado e relações políticas sólidas. Que venham os filmes! Pois os velhos sanguinários de terno, ainda estão por ai. 


Deixe seu comentário ou observação. Também estou no Twitter e vou adorar discutir mais sobre o tema. 

Publicado por Samuel Patrian

Defendo filmes ruins, tenho mais quadrinhos que consigo ler e to sempre atrasado nas minhas séries.

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