O Monstro do Pântano de Alan Moore

Um dos primeiros trabalhos do autor britânico, é também uma das obras mais impactantes dos quadrinhos ocidentais. Exemplo de roteiro, desenvolvimento de personagem e narrativa visual.

Alan Moore não era o mago dos quadrinhos e o autor consagrado que conhecemos hoje, tampouco era um mago, quando foi chamado para escrever A Saga do Monstro do Pântano para a DC Comics, em 1984. Em seu currículo, haviam histórias bem sucedidas para a 2000 A.D., Warrior e Marvel U.K., mas era um estreante e total desconhecido no mercado americano.

Ao longo das 45 edições em que esteve à frente do título, entre 1984–1987, Moore entregou roteiros profundos, audaciosos e utilizou técnicas totalmente experimentais de construção e narrativa. Façanhas que provocaram e inspiraram a renovação de toda uma industria.

Suas edições marcaram o inicio da famosa “Invasão Britânica dos Quadrinhos”, onde diversos quadrinistas ingleses passaram a publicar nos Estados Unidos. Autores como Neil Gaiman, Grant Morrison, Peter Milligan e tantos outros, puderam mostrar seus talentos e se estabeleceram após esse período.

Foi durante uma dessas histórias que surgiu John Constantine, criado por Moore em Monstro do Pântano #25. Constantine mais tarde ganhou sua própria revista, pelas mãos de Jamie Delano, e se tornou um dos personagens mais queridos da DC Comics. Além disso, a fase de Alan Moore trabalhando com o Monstro do Pântano, é considerada por muitos uma inspiração para a criação do selo Vertigo, alguns anos depois. Uma iniciativa da lendária editora Karen Berger, para que a DC publicasse histórias mais adultas e autorais.

Só algumas, das inúmeras contribuições do Monstro do Pântano de Alan Moore, para a história das histórias em quadrinhos.

Precedentes

No inicio, era tudo mato.

O Monstro do Pântano (Swamp Thing, DC Comics) foi criado em 1971, pelo roteirista Len Wein e o artista Bernie Wrightson, para a coletânea de histórias de terror House of Secrets #92. Essa história curta se passava no inicio do sáculo XX e narrava a tragédia de Alex Olsen, o cientista assassinado, que retornava como uma criatura aterrorizante do pântano.

No ano seguinte, o personagem ganhou uma revista própria, que durou de 1972 à 1976, com 24 edições pelas mãos de Wein e Wrightson. A origem foi recontada para que se passasse nos anos 70 e o Monstro do Pântano, que agora se chamava Alec Holland, ficou menos disforme e um tratamento mais heroico. As histórias dessa primeira fase foram marcadas pela busca de Alec por uma cura, enquanto lutava contra zumbis, alienígenas e cientistas loucos.

Em 1982, foi lançado um filme para o personagem. Para aproveitar a repercussão, a DC Comics, decidiu retomar com o titulo. A revista passou a se chamar “A Saga do Monstro do Pântano”, era escrita por Martin Pasko e desenhada por Tom Yeates. Nessa segunda fase, o Monstro do Pântano viajava por lugares exóticos, ainda buscando recuperar sua humanidade, enquanto enfrentava suas habituais ameaças. Nessas aventuras foram adicionados demônios, bruxas e possessões, mas isso não impediu que as histórias se tornassem repetitivas após algumas edições.

Martin Pasko ficou à frente do titulo até a edição #19 e a revista beirava o cancelamento quando Len Wein, agora editor, decidiu arriscar. Wein convidou um promissor e desconhecido roteirista inglês, para dar continuidade a Saga do Monstro do Pântano. O personagem, nunca mais seria o mesmo.

A era Alan Moore

…Imaginaram que houvesse chagado ao limite. Não se iludam mais. Não há limites.

A Saga do Monstro do Pântano #20 (Janeiro de 1984) – Primeira edição com roteiro de Alan Moore.

Alan Moore deu as histórias um texto mais poético e próximo da literatura clássica, com uma abordagem mais humana, filosófica e existencial. Elementos raros nos quadrinhos da época, contudo nas edições mensais.

O terror físico, o suspense e os monstros, foram substituídos por um horror psicológico e sinestésico. A ficção-cientifica foi adicionada a equação, mas sem perder os elementos místicos e sobrenaturais. A agora não eram mais aventuras em lugares remotos e que causavam medo. Era um terror urbano, mais próximo, cheio de tragédias e que causava repulsa.

Antes eu só conhecia a periferia do medo…e agora cá estou, no meio da cidade grande.

Um dos primeiros feitos de Alan Moore a frente do titulo, foi reformular todo o conceito do personagem. Sua origem misteriosa, é substituída por uma explicação cientifica. Em A Saga do Monstro do Pântano #21: Lição de Anatomia, a criatura é dissecada, no sentido literal e figurativo da palavra. Aqui, descobrimos que o humano não se tornou monstro, e que o monstro nunca foi humano.

Essa desconstrução ambiciosa do personagem, fez da edição 21, a segunda escrita por Moore, uma das histórias mais lendárias do personagem. Calcule o impacto dos leitores, ao descobrirem que o personagem que acompanhavam há tantos anos, não era o que pensavam.

Embora essa transição completa no conceito e na origem do personagem, tenha sido muito bem sucedida, isso não impediu o autor de desconstruir mais algumas vezes o protagonista. Em uma jornada de autoconhecimento e existencialismo, ele fez do monstro um elemental, do elemental uma consciência coletiva, até torná-la um deus.

Não me deixaram ser humano…e me tornei…monstro.
Não me deixaram ser monstro…e me tornei…planta.
E agora…Você não vai me deixar…Ser uma planta.

— Alec Holland, o Monstro do Pântano.

Ao ler o Monstro do Pântano, é possível observar a evolução de Moore como autor e o desenvolvimento de algumas ideias e crenças, que se ampliaram e se tornariam sua visão de mundo. Nessas histórias, nos deparamos com diversos temas e conceitos que seriam amplamente trabalhados com o Doutor Manhattan, em Watchmen (1986).

Não só do Pântano, mas americano

…E as ondas se propagam América a fora. Por meio das mentes mais torpes.

Agora que a criatura dos pântanos da Louisiana estava consolidada, era hora de Moore dissecar os Estados Unidos da América. É irônico que um autor britânico, da remota Northampton, tenha descrito tão bem os EUA, seus problemas e necessidades. O autor captou a essência do espirito americano.

Em Gótico Americano (arco de histórias, a partir da edição #37), Moore cria uma verdadeira road trip pela América, passando por cidades pequenas, incorporando lendas urbanas, mitos e os fatos históricos de cada lugar. O que evidencia seu amplo conhecimento e denota um trabalho de pesquisa excepcional.

Ao longo de suas 45 edições, Moore abordou temas importantes como pautas ambientais e sociais. Algumas das histórias mais impactantes tratavam do racismo, da violência doméstica e desigualdade social, que infelizmente, não ficaram nos anos 80. Essa fase do Monstro do Pântano é extremamente política, o que a torna ainda mais relevante e atemporal.

Essas histórias também criticavam o moralismo e a hipocrisia, sobretudo do americano da época. O roteiro critica, inclusive, o moralismo dos outros heróis da DC e da Liga da Justiça.
Simbolicamente, e como prova de sua relevância, o Monstro do Pântano de Moore, foi um dos primeiros títulos a romper com o Comics Code Authority, uma espécie de regulamentação, a qual os quadrinhos eram submetidos desde a década de 50.

Arte e Narrativa Visual

Não basta ser épica e disruptiva, tem que ser contada como tal.


Quadrinhos não são textos ilustrados. A nona arte é a junção de narrativa visual, com a parte escrita, dos diálogos e narrações, formando uma unidade. E nesse aspecto, Monstro do Pantano também consegue ser impecável e revolucionária.

Com desenhos rústicos, mas cheios de detalhes, Stephen BissetteJohn Totleben e mais a frente, Rick Veitch, entregaram páginas impressionantes. As expressões, texturas e a arte afiada para histórias de terror, trazem inúmeras sensações e expandem a obra ao máximo.

Além de reimaginar designs novos para o personagem e sua nova proposta, os artistas tinham a difícil tarefa de desenhar um horror mais psicológico, ao invés do físico, e conseguiram. Os artistas traduziram muito bem as sensações que os textos metafóricos e poéticos de Moore sugeriam.

A diagramação das páginas, molduras e o uso não-convencional dos quadros e balões, fizeram do Monstro do Pantano, uma das obras mais experimentais e disruptivas da Nona Arte. Esses elementos agregam muito ao ritmo e as sensações transmitidas por essas histórias.

As cores de Tatjana Wood, completam o espetáculo. A colorização viva, impressiona logo no primeiro vislumbre. As cenas e quadros que se passam nos pântanos, trazem algumas das composições mais lindas da HQ.

Juntos, o time de artistas incluiu algumas sutilezas, como a cor e os detalhes do Monstro, que se alteram pelas estações e marcam a passagem de tempo.

O trabalho em conjunto, entrega uma das obras mais inesquecíveis e completas dos quadrinhos. Seja pela qualidade técnica e narrativa dessas histórias, ou pela revolução que causou na nona arte, A Saga do Monstro do Pantano merece ser lida, e relida, por qualquer aficionado por quadrinhos.



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Publicado por Samuel Patrian

Defendo filmes ruins, tenho mais quadrinhos que consigo ler e to sempre atrasado nas minhas séries.

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