Cidadão Kane: Um filme sobre a solidão

Vida, obra e solidão de Charles Foster Kane, o magnata da comunicação, neste clássico de Orson Welles, 1941

Quase oito décadas após seu lançamento, Cidadão Kane, o primeiro filme dirigido pelo jovem Orson Welles (1915–1985), ainda é uma das melhores e mais grandiosas obras da história do cinema. Um filme sobre poder, influência, corrupção, imprensa e sensacionalismo. Que com sua narrativa inovadora, linguagem cinematográfica revolucionária e beleza sem igual, tem como um de seus vários temas, um dos sentimentos mais fortes e profundos da humanidade, a solidão.


Quando, ainda no primeiro semestre da faculdade de Radio e TV, recebi a indicação de que esse era um filme “obrigatório” para todos que quisessem estudar ou lidar com comunicação, não me disseram o que ia encontrar. Claro que me disseram o quão importante é a obra. Afinal, Cidadão Kane havia mudado para sempre o cinema, com sua fotografia ambiciosa, seus diferentes enquadramentos, planos, ao incorporar uma linguagem teatral, radiofônica e possuir uma estrutura narrativa tão megalomaníaca, quanto seu protagonista.

O que não me disseram, é que encontraria na história de Charles Foster Kane, uma das abordagens mais humanas e profundas da sétima arte. E eu não estou me referindo a profundidade de campo — que aliás, é uma outra revolução da obra. O roteiro, impecável até mesmo para os padrões atuais, narra a vida e a obra do dono de um império das comunicações, um homem que conquistou quase tudo que a América poderia lhe oferecer. E que do topo de seu império, descobriu o quanto o mundo pode ser solitário.

“Não Ultrapasse” — É o que diz a placa, mostrada no primeiro frame do filme. Os planos seguintes mostram cercas, grades e uma mansão sinuosa, esculpida em mármore frio e cercada por tesouros e animais exóticos. A mansão é Xanadu, referência ao palácio dos prazeres do Império Mongol. E em uma de suas janelas, a unica luz acesa nos revela o dono de tal império: O “Kublai Khan Americano”, que cercado de pinturas, quadros e estátuas, diz sua última e indecifrável palavra: “Rosebud”.

O primeiro frame do filme nos fala muito sobre seu protagonista. Mesmo a obra sendo sobre o grande quebra-cabeças que foi sua vida, nunca enxergamos sob o seu ponto de vista. Conhecemos Kane através da opinião pública, das manchetes e dos relatos amargurados de seus amigos, amores e funcionários. Mas nunca entramos em sua mente, nunca ultrapassamos. São relatos daqueles que, assim como nós espectadores, jamais o decifraram ou conheceram realmente suas motivações. Ao observarmos o protagonista desta forma, ele se torna ainda mais complexo e fascinante.

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O pequeno Charles Kane e um dos poucos flashbakcs de sua infância.

A única coisa que realmente sabemos sobre Kane, é que a solidão o acompanhou a vida toda. Quando criança é o garoto que brinca sozinho ao fundo da cena, enquanto os pais, negociam seu destino. Ao ser entregue ao tutor, ouve de seu pai que: “…será muito rico e nunca mais se sentirá só”. Ele não prevê o que está por vir.

A vida adulta não o distanciou deste sentimento. Expulso das melhores faculdades, distante e tratado apenas como um herdeiro por seu tutor/pai adotivo, teve poucos amigos e viveu rodeado apenas de seus funcionários. Logo fez da ambição, uma válvula de escape.

Kane sempre possuiu uma necessidade insaciável de ser amado. O que é reforçado no filme por suas festas extravagantes, egocêntricas e por sua breve tentativa de ingressar na politica. Ao adquirir o Inquirer, jornal que seria o alicerce de seu legado, sua primeira atitude é publicar um editorial, cheio de promessas, como se fosse sua apresentação para o mundo. Como dito por seu melhor amigo, Jedediah Leland: “Você quer que as pessoas pensem que as ama, para que o amem de volta”.

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Ao longo do filme, Kane não coleciona apenas estátuas. A frase de seu pai ao se despedir, parece ter impregnado em seu subconsciente, de tal forma, que o faz passar a vida inteira comprando e colecionando pessoas. Como quando compra os melhores profissionais do jornal concorrente, “feito uma criança numa loja de doces” — Palavras dele.

— Não sabia que ele colecionava diamantes.
— Ele não coleciona. Mas coleciona alguém que coleciona diamantes.

Nem seus amores foram suficientes para preencher o vazio. Sua primeira esposa, teve que deixa-lo por ser tratada apenas como um troféu, em um casamento que ele fez questão de anunciar nos jornais. O distanciamento entre os dois é mostrado de uma forma trágica. Ainda mais trágica que a morte dela e de seu único filho. Mais uma perda na vida de Kane.

Em seu segundo casamento, com a jovem Susan Alexander, ele se apaixona pelo fato de alguém gostar dele, mesmo sem saber quem ele é. Algo inédito em sua vida. Com o tempo, mesmo ainda o amando, Susan também é obrigada a deixá-lo. É a única a chorar sua morte durante o filme.

E assim, o cidadão Kane se tranca em seu castelo. O homem que teve tudo, o homem que perdeu tudo. Seu melhor amigo, o descreve com amargura e rancor. Seu administrador, com pena. Seu mordomo, moralmente questionável, tenta vender seus segredos e o jornal, apenas lucrar com sua excentricidade e tragédia.

A solidão do protagonista e a melancolia de sua história, também reflete nas pessoas a sua volta. Seu pai adotivo, morreu sem receber o seu amor. Sua primeira esposa só o via no café da manhã, a segunda viveu reclusa em seu castelo de mármore e terminou bebendo solitária em um teatro decadente. Seu melhor amigo terminou em um asilo, seu administrador, viveu apenas pelo trabalho e fala com nostalgia de uma garota que viu há décadas atrás.

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Quanto a ultima palavra de Kane: “Rosebud”. Ninguém sabe o que significa e ninguém se importa realmente. É apenas uma nostalgia, uma lembrança trivial, a qual Kane não tinha com quem compartilhar.

Se tirássemos todos os méritos técnicos e as revoluções geradas pela obra, ainda sim, teríamos um filme profundo, humano e com um dos personagens mais intrigantes da ficção. Dentro e fora das telas, Cidadão Kane se tornou sinônimo de poder. O personagem ficcional é uma referência de conquistador, mas também deveria ser um sinônimo pra solidão.


Obrigado por ler até aqui ♥ Fique a vontade para opinar e contribuir com essa reflexão sobre o filme. Para outros textos, siga a publicação do Incoerente.

Publicado por Samuel Patrian

Defendo filmes ruins, tenho mais quadrinhos que consigo ler e to sempre atrasado nas minhas séries.

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