Orange Is The New Black: As joias brutas de Litchfield

A conclusão cruel e honesta de OITNB

O ano de 2019 foi bem intenso para a televisão e o universo das séries. Tivemos o final decepcionante de Game of Thrones e a redenção da HBO com Chernobyl Watchmen, além da excelente Euphoria e a terceira temporada de True Detective. A Disney deu início ao seu serviço de streaming com The Mandalorian (Baby Yoda♥), a Amazon nos presenteou com The Boys, e a Netflix, continuou a nos bombardear com conteúdo toda semana. Tivemos a terceira temporada de Stranger Things, a surpresa de Love, Death & Robots e mais uma porção de conteúdo que é humanamente impossível de acompanhar. Mas entre tantas estreias e hypes, uma joia brilhou subestimada e ofuscada por esse mar de produções. Justo ela, uma das primeiras grandes séries do streaming e um dos pontapés iniciais da, agora respeitada, Netflix. Estou me referindo a sétima temporada de Orange Is The New Black, o encerramento de uma das séries mais humanas e sensíveis da TV.

A sétima e ultima temporada de OITNB estreou em Julho de 2019, mas só agora eu consegui finaliza-la. E não é que eu tenha deixado passar batido, ou a desprezado, mas quando se acompanha uma série desde o inicio, por sete anos, não é fácil concluir e dizer adeus. Eu precisei de tempo para isso. Orange sempre foi uma série tão emocionante e bem escrita, que eu não queria vê-la às pressas, apenas para dar check em minhas listas.

E aproveitando que a série estreou recentemente na TV aberta (Band), decidi falar um pouco sobre ela. Primeiro, descrevo um pouco da minha percepção ao longo da série, em seguida, falo sobre o seu encerramento. Eu aviso quando chegarem os spoilers. Boa Leitura.


Orange Is The New Black começou como qualquer outra série ou filme sobre a prisão. Cheia de clichês, como a segregação por grupos étnicos e os guardas desprezíveis. Haviam as gangues, com as intimidações, os esquemas e é claro, a violência. No inicio, a série repetiu velhos estereótipos sobre a cadeia, elementos do senso comum e do imaginário popular. Mas isso não é uma crítica negativa, muito pelo contrário. A história começar desta forma faz todo o sentido, afinal estamos acompanhando do ponto de vista de Piper Chapman, a protagonista perdida naquele microuniverso laranja. Entramos na Detenção de Segurança Mínima de Litchfield através de seus olhos, observando sob os preconceitos de uma jovem nova-iorquina de classe média alta.

A série é inspirada no livro, de mesmo nome, escrito por Piper Kerman e narra suas experiencias na prisão. Teve sua estreia em 11 de Julho de 2013 e foi uma das primeiras séries a carregarem o selo de “Netflix Originals”. Ao longo dos sete anos que esteve em produção, a série, as vezes classificada como drama, as vezes como comédia, nos conquistou. Foi subestimada, acumulou prêmios, revelou estrelas e nos emocionou com algumas das histórias mais comoventes da televisão.

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Piper é só um pretexto para conhecermos dezenas de outras histórias.

Ao caminhar pelos corredores e celas de Litchfield, encontramos histórias dolorosas, cruéis e revoltantes, que nos arrancam lágrimas, mas que também são capazes de despertar sorrisos. “Empatia e Humanidade” são as únicas palavras capazes de definir uma série como OITNB.


Após nos apresentar a protagonista e sua entrada naquele mundo, de qual agora faz parte, a série se refina. Somos apresentados a uma vastidão de personagens e motivações, com diferentes tons de pele, sotaques e nacionalidades, com diferentes sexualidades, vindas de múltiplas realidades, famílias e situações.

A empatia que a série nos provoca é surreal. Nenhuma daquelas mulheres é inocente, mas a série tenta não provocar julgamentos. Seja por tolice, tentação ou sobrevivência, todas ali cometeram crimes e estão pagando por eles. Em momento algum o roteiro tenta justificar, negar ou defende-las de seus atos, apenas nos lembrar de que todas elas são humanas. Antes de serem prisioneiras, todas elas são filhas, mães, irmãs ou o amor de alguém. Todas possuem histórias que vão além de seus crimes.

Em pouco tempo, a jornada de Piper Chapman se torna apenas uma desculpa para conhecermos dezenas de vidas e personagens. É impossível não se emocionar com a ingenuidade de Suzane e com a irmandade com que Taystee, Poussey e Cindy cuidam dela. É impossível não se afeiçoar ao sotaque e a força soviética de “Red” Reznikov, a matriarca daquele lugar. Ou Glória Mendoza , uma mulher que só quer voltar para seus filhos, mas que enquanto isso, tenta manter suas companheiras latinas fortes e unidas.

As personagens são o ponto mais forte da série. Episódio por episódio, acompanhamos a sobrevivência delas naquele ambiente inóspito e caótico, enquanto, uma a uma suas histórias são contadas. Vemos suas trajetórias até aquele ponto, o que elas perderam, os erros que cometeram e as injustiças que sofreram. Uma estrutura narrativa brilhante, que segue desta forma até os momentos finais da ultima temporada.

Mas não são apenas as garotas de Litchfield, que fazem da obra o que ela é. Esse microuniverso que é a prisão, possui um maquinário, um sistema, público ou privado, que faz toda a coisa girar. E esse maquinário também é feito de pessoas. São guardas, administradores e executivos, que se mostram mergulhados em corrupção, sádicos, incompetentes ou só despreparados.

Esse segundo núcleo, com personagens perdidos, omissos e incapazes, que lutam por cargos, cadeiras ou salários maiores, é tão bem desenvolvido quando o primeiro. Alguns desses aplicadores da lei, também são vitimas. Outros são mais culpados e problemáticos, que aquelas as quais vigiam e repreendem. Sádicos e tolos, mas que também são pessoas. A série nunca nos deixa esquecer disso.

Orange Is The New Black sempre transitou entre o drama e a comédia. A série possui alguns momentos bobos, que contrastam com outros pesados e revoltantes, mas é isso que a torna tão deliciosa de assistir. A série sempre foi criticada por seu ritmo e subtramas que não passavam de distrações, mas até isso é defensável. Se você pensar que na cadeia o tempo passa de uma forma diferente, nem os momentos de tédio da série são à toa.

Mais uma vez, Orange is The New Black é uma série humana. E é isso que a faz tão imprevisível. Personagens entram e saem como na vida, amizades veem e vão, motivações se colidem. Nada é preto no branco. Ninguém ali é totalmente bom que não possa, ou tenha feito atrocidades, e ninguém ali é tão ruim que não possa fazer o bem.

Cada história, de cada uma daquelas mulheres, daria um filme. São jóias brutas vestindo bege… e laranja, é claro.

E fecham-se as cortinas…

(spoilers, a partir daqui)

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No final de uma série, ou de um filme, apesar de amarmos e torcermos por nossos personagens, queremos que a obra seja coerente, que seja real. Mas em Orange Is The New Black, sabemos que um final “real” não será nada bom para aquelas garotas. Pois, sabemos que na vida real nenhuma daquelas mulheres teria um final feliz. É um sentimento sufocante.

Algumas até conseguem. É lindo ver o final da Blanca, Cindy, Sophia, Glória e da própria Piper. Ainda mais após acompanharmos tudo pelo que passaram até aqui. Mas arcos como os da Red, Doggett, a transformação da Daya e todas as injustiças que ocorreram com Taystee, são extremamente dolorosos de assistir. A maneira com que seus sonhos são destruídos e seus destinos traçados, são cenas cruéis, injustas, mas totalmente coerentes com o que acontece na realidade.

Nem todos os destinos se encerram no último capítulo: Nicky Flaca dão continuidade ao ciclo. Ocupam os lugares que antes eram de Red Gloria. E quando essas duas personagens, que na primeira temporada eram garotas irresponsáveis, assumem essa missão, elas nos ensinam algo valioso. Nos ensinam que o instinto de cuidar uns dos outros, vem de onde menos esperamos.

Mas independentemente de como todas essas vidas são traçadas, algo continua imutável após as sete temporadas: o sistema prisional, sustentado por uma lógica capitalista e desumana. Vemos isso ao acompanhar Joe Caputo, que está longe de ser um herói, mas que tentou mudar as coisas de alguma forma. Ele representa a impotência perante a essa lógica. Linda Ferguson representa a máquina. Ela é fria, indiferente e abdica de sua humanidade, por isso ainda é valiosa dentro dessa engrenagem. Até seu sorriso é milimetricamente calculado. Por ultimo temos a Figueroa, alguém que compreendeu tudo isso, até aprendeu a tirar vantagem desse sistema, mas que não acredita nele, como Linda. Seu arco final é uma lição de compaixão, representando muito bem a ideia de que nem todo mundo é de todo mal.

Ao longo dos anos, Orange Is The New Black tocou em muitos temas delicados. Falou sobre família, abandono, sexualidade, problemas sociais e dezenas de assuntos impossíveis de serem resumidos. Mas escolher como tema da última temporada um assunto tão forte, atual e sensível como a imigração, foi algo grandioso. A série foi corajosa, representou bem o contexto nos tempos de Donald Trump e deportações desumanas.

Não foi nada fácil assistir ao final da imigrante, Karla Córdova. Ver seus filhos chorando em um telefonema e sendo separados da mãe, acabou comigo. E poucas coisas foram tão cruéis quanto seu final, cruzando novamente a fronteira. E não podemos esquecer de Maritza, a jovem que acompanhamos desde a primeira temporada, sendo deportada como indigente, para um país a qual nunca esteve. A série nem se atreveu a mostrar seu desfecho.

Concluir a série desta forma, mostrou que Orange Is The New Black não é, e nunca foi, uma série sobre a prisão. É uma série sobre a América.

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Eu queria poder dizer que sentiremos falta das nossas garotas. Mas a realidade é que nunca foram nossas, nós é que éramos delas.

Adeus, e obrigado pelas lágrimas.

Publicado por Samuel Patrian

Defendo filmes ruins, tenho mais quadrinhos que consigo ler e to sempre atrasado nas minhas séries.

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